Arte Menor

Posted in Uncategorized by André Sá on Fevereiro 16, 2012

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Do ninho e da caverna

Posted in Arquitectura, Literatura by André Sá on Fevereiro 22, 2010

Confirmado o diletantismo, aqui vai mais um texto, ou amálgama de palavras-chave, potencialmente perdida para a posteridade, quiçá sujeita a hallazgos fulminantes para daqui a três séculos, mais uma achega dispersa entre incontáveis servidores da Google para o potencial proveito de um perfeito desconhecido…


Do ninho e da caverna

É dos sonhos de qualquer criança. Nem que por momentos, vá, algumas horas, eclipsar toda a gente à face da Terra e explorar o que restasse, a casca da civilização, entre prédios e lojas, usufruir de tudo o que a espécie deixasse para trás. Originalmente prostituído por Hollywood e Vincent Price, em “The Last Man on Earth”,  o tal sonho viu a sua mais recente encarnação reciclada em “I am Legend”, mas nem por isso manteve a sua pureza original, pelo menos não nos States, em que um homem só não merece um filme, mas requer   sempre zombies ou algo equivalente.

Este imaginário do Homem Só chegaria ao estrelato pela mão de duas fontes de improvável relação entre si, uma relação aliás baseada apenas neste nicho de sonho infantil que será namorar um mundo vazio.

The World Without Us, by Alan Weisman

Em entrevista ao Daily Show de Jon Stewart, o autor d’ “O Mundo sem Nós” explica que nunca quis talhar um livro de consciencialização ambiental que informasse o leitor de todas as formas pelas quais iria morrer, pelo que decidiu matar toda a gente nas primeiras páginas e divertir-se a estudar o que faria o mundo sozinho. Alan Weisman, jornalista, investigador, informa, meticuloso, sem meias tintas ou sentimentalismos, que o labirinto dos túneis do subwayde Nova Iorque seria completamente inundado em duas semanas caso ninguém mantivesse a funcionar as bombas que impedem o rio Hudson de invadir as linhas, pelo que os pilares dos túneis e estações de metro, cujo tecto são os passeios, praças e avenidas da cidade, apodreceriam completamente em menos de vinte anos, transformando a Lexington Av. em Lexington River, a Times Square no Times Lake, investido então de um nome ironicamente adequado.

Dos materiais humanos sobreviveriam sobretudo o bronze e os plásticos, que a selecção natural trataria ainda assim de corroer através de uma futura gestação de bactérias ávidas de PVC. O derradeiro vestígio da espécie humana serão as ondas de rádio das inúmeras transmissões televisivas e de dados wireless, perpetuamente amplificados pelo universo, audíveis ainda após o Sol expandir-se e engolir o sistema solar até Marte.

Outra fonte que conferiu ao sonho do Sozinho mais quinze segundos de fama veio do Japão, em Portugal por ocasião do Fantasporto, e parece que antecipa o que o tempo virá a fazer às suas obras, arquitectónicas por sinal, escusando-se a sujeitá-las à Natureza ou mão humana, e criando-as quase que consumidas à partida, de raíz.

© Sou Fujimoto

“As ruínas, enquanto inspiração para o trabalho arquitectónico, retratam a condição de homogenia”, diz à Vice, via e-mail, para advertir que não pretende “uma tradução literal de um certo pensamento nihilista que concebe a arquitectura como desgastada pela meteorologia, ou mesmo desconstruída, pela Natureza ou pelo Homem”.

Fujimoto apresentou ainda, em palestra no Fantasporto, o projecto vencedor do último World Architecture Festival, em Barcelona: a Casa de Madeira, baseada num tipo de jogo de encaixes tradicional do Japão. É a sua versão da caverna, orgânica na sua adaptação ao corpo humano, sem pisos nem pilares, mas em que cada barra de madeira é simultaneamente degrau, mobília, parede e chão.

Uma arquitectura de um “futuro primitivo”, nas palavras com que baptizou o livro em que entende “cada ponto de partida enquanto gerador de uma miríade de diferentes arquitecturas” e em que classifica as sua criações numa dicotomia de  Caverna vs. Ninho.

“Estes princípios são intuições; um palpite de que há infinitos pontos de partida em vez de um solitário e ideal princípio”, explica.

© Sou Fujimoto

Sou Fujimoto está já a ultimar os preparativos para a construção de uma biblioteca em Tóquio, aparentemente infinita no modo pelo qual as paredes parecem compostas de livros, curvando-se sem fim à vista, da mesma forma que confidenciou ter detectado nas curvas das ruas da Ribeira do Porto. “A Biblioteca de Babel”, de Jorge Luís Borges, salta à imaginação e Fujimoto confirma à Vice que é dos seus contos favoritos.

Nele, a Biblioteca, que contém todos os livros possíveis, com todas as combinações de vinte e cinco letras, parece precognizar o próprio conceito de Internet, em que a pesquisa de combinações aleatórias de símbolos origina cada vez mais resultados, a partir de palavras caóticas cada vez maiores. Faça-se o exercício e pesquise-se quaisquer conjuntos de quatro ou cinco caracteres, e só muito raramente não se obterá sentido numa língua ou outra, num código ou noutro.

Estes dados transmitidos em ondas de rádio e modems wireless, perpetuamente amplificados, audíveis ainda após o Sol expandir-se e engolir o sistema solar até Marte, seriam o derradeiro vestígio da espécie humana, a biblioteca que restará num Universo que, diz-se, terá a forma de Ninho…

“Talvez me enganem a velhice e o temor, mas tenho a suspeita de que a espécie humana — a única — está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.”

Jorge Luís Borges

Da corrupção estacionária

Posted in Jornalismo by André Sá on Fevereiro 22, 2010

Imagem: DR, colecção: F1 online RM, fotógrafo: sodapix/F1online

Escrevi isto em estágio no Diário Económico e não foi publicado, pelo que o disponibilizo aqui, com as devidas alterações e hiperligações adequadas…


Se lhe parece improvável que uma multa de estacionamento que eventualmente receba possa reflectir o estado do sistema de corrupção em Portugal, pois talvez tenha razão. A não ser que ocupe um qualquer cargo político que lhe permita a isenção de tais coimas. Nesse caso, a preocupação com um bom estacionamento assume já contornos éticos e de civismo que nada têm a ver com o cumprimento da lei pelo evitar da punição. No caso de ser imune, é então a cobaia perfeita para medir, ainda que com fidelidade duvidosa, o grau de cultura de “elasticidade” corporativa, económica e política vigentes no país.

A premissa, muito ao tom dos ‘best-sellers’ “Freakonomics e “O Economista Disfarçado”, foi apontada justamente pelo autor deste último, Tim Hartford, num artigo da revista ‘on-line’ Slate.com. De acordo com um estudo levado a cabo por dois já conceituados economistas, Ray Fisman e Edward Miguel, a cultura de corrupção de um país é medível de acordo com o esforço perpetrado pelos seus diplomatas, embaixadores ou cônsules em, aquando de visitas a outros países, evitarem desrespeitar a mais pequena lei, ainda que estejam imunes das consequências do seu incumprimento.

Pelo que  o Diário Económico pôde apurar junto de Tim Hartford, a sensação que trespassa junto dos “novos jornalistas económicos”, aqueles que incorrem em sucessivas tentativas de acessibilizar a economia ao grande público através de livros que a simplificam e a munem de um cariz de manifesto entretenimento, é de que “a banalização da corrupção de um determinado país se pauta mais por pressões de índole cultural que pelo sistema legal vigente”. O autor de “O Economista Disfarçado” pretende que tais análises, de intenção marcadamente populista e de divulgação da economia às massas, são elaboradas a partir de uma preocupação com rigor e cuidado no tratamento de dados e correlações que ultrapassam a de jornalistas e políticos. “Todos estes economistas admitem que a correlação não é o mesmo que consequência”, diz, postulando que o rigor dos estudos permite inferir ilações entre pormenores aparentemente irrelevantes, como simples infracções de trânsito, e problemas de abrangência cultural.

O estudo [PDF] de Ray Fisman e Edward Miguel, que abarca o período de Novembro de 1997 ao mesmo mês de 2002, contabilizou o número de diplomatas estrangeiros que afluíram à sede das Nações Unidas em Nova Iorque, assim como o número de multas de estacionamento que cada um descobriu no limpa pára-brisas da respectiva viatura.

Ainda que parecendo carente da análise de vários factores influentes na suposta medição da mentalidade cívica e ética dos diplomatas, como o facto de não conduzirem as suas próprias viaturas, a análise propõe que a mentalidade do comum dos cidadãos de um dado país condiciona a respectiva cultura de corrupção vigente, aliada aos incentivos que os respectivos governos atribuam à transparência ou ao contorno das normas estabelecidas.

É interessante verificar como países como a Noruega ou o Japão se encontram no fundo da lista de diplomatas que receberam mais multas de estacionamento, enquanto Moçambique, Angola e Indonésia, todos países com uma séria e grave cultura de aceitação da corrupção, ocupam lugares cimeiros da lista liderada pelo Kuwait, que em 1998, com somente nove diplomatas presentes em Nova Iorque em missão das Nações Unidas, contabilizou uma média de 246,2 infracções por diplomata.

A lista, ainda que de manifesto interesse lúdico, revela-se contudo demasiado inexacta nas associações que postula entre o cumprimento da lei e a corrupção. Basta verificar que países se encontram no fundo da lista, isto é, cujos diplomatas não sofreram qualquer multa, para depreender que o estudo pouca relação terá com o carácter corruptível que as respectivas nações possuem. Será de algum modo credível que o Panamá seja dos países mais isentos de corrupção no mundo, a par da Colômbia e ao mesmo nível da Suécia por não possuir infracções entre os embaixadores que envia em missões a Nova Iorque? Dificilmente, mas é reveladora a coincidência entre o número de multas passadas a diplomatas de países de maior ou menor liberdade política, um elevado número para países do Norte e Centro de África e inexistente para vários países europeus e o Japão.

Tim Hartfort considera que o contabilizar das multas de estacionamento dos diplomatas de um qualquer país não constitui matéria relevante para a medição do sistema de corrupção instalado nas respectivas sociedades, mas providencia “uma relevante análise das suas consequências”, na medida em que reflecte a preocupação dos governos em proporcionar incentivos ao combate à corrupção.

Portugal, para o melhor ou o pior, encontra-se em 68º lugar na lista de países que mais multas receberam: dos dezasseis diplomatas presentes em Nova Iorque em 1998, cada um recebeu uma média de 8,8 multas, o que nos coloca abaixo da Venezuela mas com mais coimas que o Uzbequistão. Quantos dos leitores, se presenteados com imunidade, se inibiriam de estacionar onde bem lhes apetecesse?

André Sá

20 de Julho de 2006

Sonhos de um Borges nulo

Posted in Literatura & Cinema by André Sá on Fevereiro 22, 2010

Jorge Luís Borges


Passaram esta semana 20 anos da morte de Jorge Luís Borges, argentino de ascendência portuguesa que tantas considerações sobre a morte teceu, e que vários ensaios matemático-filosóficos de impossível catalogação não suplantaram em fama as conotações fascistas de que foi feito refém.

“Foi o general Augusto Pinochet quem arrumou de vez com uma teimosa e adiada certeza, que dominava o universo literário há década e meia: convidou Jorge Luís Borges a fazer escala em Santiago do Chile para receber duas condecorações. Borges (…) confundiu vaidade com imunidade e aceitou. Os liberais europeus nunca lho perdoaram e , em 1976, esse impulso mal calculado afastava irremediavelmente o escritor argentino do Nobel da Literatura, depois de um favoritismo consecutivo desde 1961, ano em que dividiu com Samuel Beckett o prémio Formentor”.

João Gobern inicia assim o excelente artigo publicado no último suplemento Dinheiro & Ócio do Diário Económico que, em tom de biografia condensada, alerta para a alegada injustiça sofrida pelo escritor que, herdando do pai, Jorge Guilermo “a convicção profunda de que o melhor sistema [político] seria o que melhor correspondesse a uma intervenção mínima do Estado”, foi sucessiva e impiedosamente acusado de simpatias para com ditadores e despotismos.

Estudioso do infinito, capaz de sucintos ensaios sobre a imortalidade, labirintos e xadrez, assim como de conjecturas e teoremas filosóficos e históricos sobre mitologias de toda a índole, ter-se-á celebrizado pelas biografias e bibliografias fictícias que suplantaram em pormenorização e realismo muitas obras incidentes sobre personagens reais. Adquiri esta semana o primeiro tomo das suas Obras Completas, uma impecável edição da Editorial Teorema, que abarca o período de produção literária de 1923 a 1949. Uma breve aproximação aos temas de “Ficções” (cuja leitura presunçosamente recomendo, se possível, em espanhol) e “História da Eternidade” revela imediatamente um deslumbramento pela paranormalidade da existência e dos mistérios universais que, explorados através de curtos contos e ensaios do tão sul-americano realismo fantástico, quase imediatamente denotam uma humildade metafísica e abertura e riqueza de mente dificilmente compatíveis com a tacanhez e limitação espiritual do fascismo e extrema direita a que Borges foi associado.

De poesia ecléctica a crítica de cinema, são as ‘short-stories’, digamos, que fazem com que os trinta euros de cada um dos quatro volumes da obra de Borges valham a pena. Encontrei em “A Biblioteca de Babel”“O Imortal” (contos que de resto simbolizam perfeitamente a originalidade da temática e estilo borgesianos) um paralelismo com a obra de um realizador contemporâneo, Darren Aronofsky, popularizado sobretudo por “Requiem for a Dream”. Em “Pi” disseca o carácter divino do infinito e todas as suas implicações de impossível processamento pelas capacidade humanas actuais, espelhadas perfeitamente na biblioteca infinita de Babel, que Borges espectacularmente refuta pelas palavras de uma outra (fictícia?)autora:

“Letizia Álvarez de Toledo observou que esta vasta Biblioteca é inútil: rigorosamente, basta ria um único volume, de formato comum, impresso em corpo nove ou em corpo dez, que cons tasse de um número infinito de folhas infinitamente finas. (Cavalieri nos princípios do sécu lo XVII disse que todo o corpo sólido é a sobreposição de um número infinito de planos.) O manejo desse vade-mécum sedoso não seria cómodo: cada folha aparente desdobrar-se-ia noutras análogas; a inconcebível folha central não teria reverso.”

De banda sonora acutilante, composta por Clint Mansell, o filme dificilmente acompanha em estilo a prosa de Jorge Luís Borges, é a temática tão pouco explorada actualmente que oferece o único paralelismo entre as obras tão díspares, que no entanto são extremamente bem sucedidas no intuito de confontar a mente humana com os meandros ainda divinos do processo existencial. Clint Mansell escreveu a música para todas as longas-metragens de Darren Aronofsky, sendo que a executada pelos Kronos Quartet, para “Requiem for a Dream”, foi a que mais o popularizou em terras lusas, não obstante o seu vasto repertório no ‘scoring’ de inúmeras películas ‘mainstream’ e não só. Tive a oportunidade de falar com David Harrington, violinista condutor do grupo, aquando do excelente espectáculo que há umas semanas apresentaram em Serralves e sobre o qual escrevi.

Avançou-me DavidHarrington que os Kronos Quartet já remataram a gravação da banda sonora do próximo filme de Aronofsky, “The Fountain”, também composta por Clint Mansell e que deverá sair em Outubro. Disponibilizo aqui a entrevista, que sobrepus a “Summer Overture” de “Requiem for a Dream”, executado pelo quarteto de cordas.


The Fountain

“The Fountain” deverá tratar da eterna juventude e imortalidade, sonhos borgesianos concretizados na vida e obra que deixou, ainda que deturpados, creio, por irrelevantes ataques de índole política que em nada afectam o nicho literário construído pelo autor. Urge talvez um outro requiem neste vigésimo aniversário da morte da sua morte, um requiem para os sonhos de Borges que n’ O Imortal a vê lúcida:

“Quando o fim se aproxima, já não restam imagens da lembrança; só restam palavras. Não é estranho que o tempo tenha confundido aquelas que alguma vez representaram com aquelas que foram símbolo da sorte de quem me acompanhou, por tantos séculos. Eu fui Homero; em breve serei Ninguém, como Ulisses; em breve, serei todos: estarei morto”.

André Sá,

19 Junho de 2006

 

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