Arte Menor

Barco Dalva vence XXXI Regata dos Barcos Rabelos em corrida atípica

Posted in Jornalismo by André Sá on 25 de Junho de 2014

Publicado pela agência Lusa a 24 de Junho de 2014.

A tradicional Regata de Barcos Rabelos voltou a realizar-se em dia de S. João, a partir do Cabedelo até à Ponte D. Luís, no Porto, e sob condições atmosféricas atípicas, de pouco vento e chuva intensa, mas com um efeito benéfico para a competição.

Pormenor da XXXI Regata de Barcos Rabelos, Porto © André Sá 2014.

Pormenor da XXXI Regata de Barcos Rabelos, Porto © André Sá 2014.

Com 14 barcos rabelos em representação do mesmo número de vinhos do Porto, a corrida foi mais renhida que o habitual, com praticamente todas as embarcações a competir lado a lado, quando normalmente navegam já dispersas pouco após o arranque da regata.

Segundo o ‘skipper’ do rabelo da Dalva, Jorge Dias, que venceu a competição, esta foi uma “corrida fantástica”, com a chuva como “elemento surpresa” e, dos últimos anos, a corrida em que os barcos “estiveram juntos durante mais tempo”.

Jorge Dias recordou ainda que esta foi apenas a sua terceira participação na regata, sendo que da primeira vez partiu o mastro, da segunda ficou “a meio da classificação”, à terceira foi de vez e, portanto, “foi fantástico”.

Numa embarcação providenciada pela Confraria do Vinho do Porto, que organiza a regata, para acompanhar os rabelos, Lance Hurtubise, empresário da restauração oriundo de Alberta, Canadá, disse à Lusa que “a regata é ótima, muito divertida”. E que tem “muito vinho do Porto”.

Para o empresário, que visita Portugal pela primeira vez, a corrida “parecia pintada”, dado o vagar com que os rabelos navegavam num dia de pouco vento, mas terá valido a pena a viagem também pela noite de S. João, apesar dos martelos “um pouco barulhentos demais” para o seu gosto.

“Nós sabemos que normalmente o S. João não se dá muito bem com o S. Pedro”, disse à Lusa Manuel Cabral, presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), lembrando as ocasionais “orvalhadas” do mês de junho, mas admitindo que não se lembra de “uma regata com tanta chuva”.

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XXXI Regata de Barcos Rabelos sob a Ponte da Arrábida, Porto © André Sá 2014.

“A relação entre os dois santos não deve ser a melhor”, supôs o presidente do IVDP, constatando o pouco vento que se fez sentir e a ausência de “toda uma série de coisas que normalmente acontecem” e que ficaram de fora desta XXXI regata.

“No princípio, é normal haver velas que rasgam e mastros que partem”, considerou Manuel Cabral, salientando “uma coisa verdadeiramente atípica, mas que é muito bonita” desta regata, o facto de os conjuntos de velas terem estado tanto tempo lado a lado, permitindo “um pano de fundo muito invulgar”.

O quadro atípico acabou por favorecer o objetivo da regata, concluiu o presidente do IVDP, sublinhando que “o que é importante é mostrar muito e de uma forma idêntica as diferentes marcas e empresas e o vinho do Porto de uma forma geral.”

“E isso está a acontecer muito bem”, disse, enquanto ainda decorria a competição no rio Douro.

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Placa de ferro ao sol depois da chuva no largo Alberto Pimentel, Porto, a 19 de maio de 2014.

Posted in Fotografia by André Sá on 19 de Maio de 2014

Placa de ferro ao sol depois da chuva no Largo das Oliveiras, Porto, a 19 de maio de 2014, por volta das duas da tarde.

Elétricos do Porto: entre o correio e o “fumista”

Posted in Jornalismo by André Sá on 4 de Maio de 2014

Publicado pela agência Lusa a 3 de Maio de 2014

Cerca de uma dúzia de carros elétricos desfilaram hoje pela marginal do rio Douro em comemoração dos 100 anos da  extensão da  antiga  carreira que  ia  da  avenida  da  Boavista  até  ao Castelo do Queijo, no Porto.  Já na sua 24.ª edição, o cortejo partiu do Museu do Carro Eléctrico em direção ao Passeio Alegre, perante o acenar de milhares de pessoas, que até no meio do rio Douro saudaram os carros de outros tempos, com remos ao alto e sorrisos rasgados.

Para Isabel Moreira, guarda-freio da STCP – Sociedade de Transportes Colectivos do Porto, o carro elétrico consegue ser mais do que uma atração turística ao permanecer útil para a população, pelo que lamenta o desaparecimento de várias linhas e sobretudo o mau estacionamento de muitos condutores, que a impedem regularmente de circular sobre os carris e que são um “problema do dia-a-dia”.

Segundo o guia e também guarda-freio da STCP Pedro Rocha, o desfile do carro elétrico “é uma forma de brindar os portuenses” com a presença dos veículos que também considera ainda úteis, até porque ainda vê “muitos utentes com passe mensal”.

“É o que acontece aqui, nesta região de Massarelos”, explicou, referindo que “ainda se utiliza muito o 18 para ir ao Hospital de Santo António ou para ir até à Baixa” e que “muitos preferem o carro elétrico ao autocarro.”  O guarda-freio de 31 anos entende que as principais curiosidades deste meio de transporte secular passam pelo “carro americano de tração animal, da década de 70 do século XIX, ou o ‘fumista’, pensado no bem-estar dos fumadores.”

“Nos outros carros só se podia fumar das nove às quatro da tarde”, contou, explicando que naqueles se podia fumar desde o início do serviço, porque eles já vinham para a rua sem janelas, o que era um sério sarilho”, por o clima do Porto ser “muito instável”.

Alvarim Teixeira, de 70 anos, ainda deu “alguns tombos”, quando era criança, ao apanhar boleias clandestinas em vários elétricos e até ao saltar em andamento “e a grande velocidade”. “Recordo-me ainda de que havia um elétrico que tinha uma caixa de correio”, disse à Lusa, explicando que as pessoas punham lá as cartas e, no final do dia, enviava-se tudo para o edifício dos Correios.”

"STCP 143, a 1910 Brill-23 semiconvertible 'Plataforma Salão' 4-wheel tram on Rua dos Mártires da Liberdade, on 11 June 1974. This narrow street was used by outbound services 7 and 8, but 143 appears to be on an un-numbered short working to Praça da República. 143 survives in the STCP operational heritage fleet."

Carreira 143 na Rua dos Mártires da Liberdade, a 11 de Junho de 1974. © Guy @ https://flic.kr/p/bTcMvD

“Era uma coisa extraordinário”, recordou.

Alvarim Teixeira trabalhou na STCP durante 29 anos, em Massarelos, e recordou, sem disfarçar a saudade, os tempos em que “havia o 10, que ia do Bolhão a Venda Nova, em Rio Tinto”, e em que o bilhete “ficava por uma média de 15 tostões.”

“Venho com os meus netos para lhes mostrar aquilo em que trabalhei”, admitiu, desejando que o desfile continue por muitos anos: “Na realidade só vem engrandecer a cidade do Porto.”


   ACYS // ROC

   Lusa/Fim

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Cartas | Condomínios

Posted in Fotografia by André Sá on 28 de Abril de 2014
Cartas | Condomínios

Vista para a Rua Formosa, Porto, a 28 de Abril de 2014. © André Sá

 

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O clube de xadrez mais antigo do país fica na Rua Passos Manuel e precisa de alunos

Posted in Jornalismo by André Sá on 28 de Abril de 2014

Publicado pela agência Lusa a 2 de Agosto de 2013

Subir os degraus até ao Grupo de Xadrez do Porto é ouvir o som de peças a cair, insistentes, em madeira, consecutivas ou alternadas pelo bater em cronómetros de mesa, às pancadas, como quem desperta o próximo lance. É esse o som do xadrez rápido, uma de entre várias modalidades do jogo milenar que são ensinadas no primeiro grupo de xadrez surgido em Portugal.

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Passeio da Rua Passos Manuel a 28-04-2014. © André Sá.

Fundado em 1940 “por um grupo de amigos”, segundo o atual presidente, Joaquim Pinho, o Grupo de Xadrez do Porto (GXP) foi urdido na cave do antigo Café Monumental, então na avenida dos Aliados, e já não tem espaço para mais alunos.

“Temos pedidos de alunos para virem aprender, mas não temos condições, porque a sala é pequena”, lamentou o presidente, que apela a ajudas monetárias e logísticas para o que supõe ser também “o clube de xadrez mais antigo da Península Ibérica”.

“É um clube que não podia fechar as portas”, diz, aludindo às razões por que aceitou ser presidente, há já sete anos, da associação que atualmente conta com “150 sócios a pagar quotas e cerca de 30 alunos dos cinco aos 14 anos”. Para o presidente do GXP, “os cinco anos de idade são a altura ideal para começar a jogar xadrez”, até porque a prática do jogo “faz com que as pessoas fiquem maduras mais rapidamente”.

Com 16 peças por jogador e 64 quadrados por onde avançar, um jogo de xadrez permite, em teoria, um número de jogos possíveis superior ao de átomos no universo, algo que para Joaquim Pinho reflete o seu poder didático. “As pessoas, quando jogam, têm que tomar atitudes que se vão refletir no resto do jogo. Como quando crescem, na vida real, e tomam atitudes que se refletem no seu dia-a-dia”, considera, acreditando que o xadrez “ajuda as pessoas a preparar-se para o resto da vida.”

Ao nível físico, a modalidade pode ser igualmente exigente, na medida em que “quando se está a olhar para o jogo, estamos a ver centenas de hipóteses e chega a ser muito cansativo”, explica Joaquim Pinho, contando que “o Kasparov [antigo campeão mundial de xadrez] dizia que chegava a emagrecer dois quilos por jogo”.

Numa pausa de um “duelo de cérebros”, que é como descreve o jogo, Augusto Pires, reformado de 74 anos, diz à Lusa que o xadrez“é um elemento fundamental para que os neurónios continuem em atividade”. “Uma partida pode demorar três, quatro, cinco ou seis horas e, a partir de uma determinada altura, depois de muitas horas de concentração e reflexão, acaba por ser muito cansativo”, concorda o “veterano”, que começou a jogar xadrez assim que se reformou.

Também para Hermenegildo Ribeiro, aposentado de 79 anos, o jogo do xadrez obriga a “puxar pela cabeça”, desde que começou a jogar “há relativamente pouco tempo, por volta dos 50 anos de idade”, sobretudo porque fez amigos no GXP e criou “o hábito de ir jogar todos os dias”.

Os duelos que se habituaram a travar ao longo das tardes dos dias de semana permitem-lhes combater também alguma solidão e conviver com jogadores mais jovens, que os vão desafiando e sendo testados, à medida que tentam outras vias para chegar ao cheque mate.

Do Grupo de Xadrez do Porto saem todos os anos jogadores que competem em três divisões nacionais e uma distrital. “Tal como no futebol”, compara o presidente, explicando que há também uma “liga dos campeões”, dedicada apenas ao xadrez por correspondência, em que “por acaso” o GXP tem também uma equipa.

“Antigamente jogava-se por carta e, por exemplo, se eu estivesse a jogar com um russo, cada jogada demorava três meses. Demorava anos, o jogo”, recorda Joaquim Pinho.

A dois anos de cumprir as bodas de diamante, o Grupo de Xadrez do Porto poderá albergar um torneio internacional da modalidade, “algo que se vê pouco no norte do país”, considera o dirigente, que prefere não revelar muitas jogadas do que pretende para o futuro do clube.

“Uma vez perguntaram ao Kasparov quantos lances ele via à frente de cada jogada. E ele disse que apenas um. Mas sempre o melhor”, disse à Lusa.

 

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A propósito do 50º aniversário da Ponte da Arrábida

Posted in Arquitectura, Jornalismo by André Sá on 27 de Abril de 2014

Realizado para a agência Lusa: Ana Cristina Gomes (Texto), André Sá (Vídeo) e José Coelho (Fotos)

Monumento nacional, obra de complexa engenharia que deu ao Porto um novo centro na Boavista, um arco de betão que ficou para a história e quatro elevadores sem uso, a Ponte da Arrábida comemora 50 anos.

O arco em betão servia de travessia aos trabalhadores que dormiam no estaleiro de Gaia, ia ver-se a obra como se fosse cinema, muitos quiseram observar se caía a ponte, mas quem morava ali não tinha desses receios.

«Não caía, não. Se andavam a fazer de novo ia cair? Só se fosse velha…», simplifica Maria das Dores, 86 anos, moradora no quase centenário bairro de Sidónio Pais, no Porto, desde que começou a construção da ponte da Arrábida.

Cinquenta anos depois da inauguração de umas das obras-primas de Edgar Cardoso, a 22 de junho de 1963, sobram memórias da construção da travessia que fez vista por ter à data o maior arco do mundo. Manuel Rito atravessou-o, dias seguidos: como trabalhava na ponte e dormia em Coimbrões, Gaia, «onde o empreiteiro tinha um estaleiro” teve direito a “um cartão para atravessar o arco».

                       

«Não tinha medo nenhum, o medo que podia ter na altura é o mesmo que posso ter agora a atravessá-la a pé», garante o homem de 68 anos, que trabalhou na travessia quanto tinha «18 ou 19». «Íamos dormir para lá e vínhamos de lá para cá para trabalhar», recorda.

Para Maria das Dores, o arco era uma coisa «natural» para quem «nunca tinha visto fazer pontes», o pior foi o filho, «atravessado», que lhe fugiu «para ir andar em cima daquela coisa [do arco], sujeito a cair».

«Lembro-me de começarem a fazer, ainda o Salazar era vivo… Posso falar no Salazar, não posso? Ele morreu… Veio ali muito em segredinho, caladinho, viu a ponte e espantou-se. Não esteve com muita conversa, que tinha medo. Não era com a ponte, era com as pessoas, andavam com raiva a ele, agora andam com raiva a outros», descreve.

Quase parece mito, esta visita do chefe de Estado, mas está documentada a presença do Presidente da República Américo Tomás na inauguração da travessia e no «momento crucial» da obra, quando lhe coube carregar nos botões para retirar à «primeira costela da ponte» o cimbre (estrutura metálica provisória) que suportara a sua construção, relata João Cardoso, sobrinho de Edgar Cardoso.

(more…)

Rua da baixa do Porto é “roteiro sentimental” para quem procura a própria infância

Posted in Jornalismo by André Sá on 21 de Abril de 2014
Rua dos Mártires da Liberdade, Porto, a 27 de Abril de 2014.

Rua dos Mártires da Liberdade, Porto, a 27 de Abril de 2014. © André Sá.

Escrito para a agência Lusa (e portanto ao abrigo do novo acordo ortográfico) a 26-10-2012.

Porto, 29 out (Lusa) – Entre a imundície e fachadas decrépitas que perfilam a rua dos Mártires da Liberdade, no Porto, escondem-se negócios que, como as antiguidades e anacronismos que vendem e são, ocultam sob o pó velharias que para outros serão tesouros.

Numa zona do Porto que prima pelos seus antiquários, alfarrabistas, lojas de candeeiros clássicos ou antros de colecionismos, a Máquinas de Outros Tempos, por exemplo, chama a atenção pelas centenas de câmaras fotográficas de rolo, com “flashes” à anos 1930 e 40, e projetores de filmes de 8mm que exibe e acumula.

Já a Livraria Académica prescinde de chamadas de atenção. Consagrada há décadas pela fama e oferta de alfarrabista fiável e por uma carteira de clientes que contou com alguns dos escritores que, já mortos – entre outros que porque agora mortos – continuam a vender.

Pouco acima, aos 48 anos e encaixado num espaço que mal chega aos dois metros quadrados, António Marinho dirige a Porto Toys, aberta em junho de 2012 num cubículo ideal para um quiosque, mas que vende miniaturas, carrinhos, cromos e cadernetas, entre bibelôs, postais e pasquins de inícios do século XX.

“Tenho muitos artigos que fazem parte do meu passado, da minha infância, nomeadamente postais dos sítios aonde ia, assim como algumas miniaturas de automóveis do meu tempo de meninice”, conta à Lusa António Marinho, enquanto adverte: “Colecionador não sou. Compro para vender”.

A clientela da Porto Toys é feita “sobretudo de pessoas para cima dos 50 anos” e o proprietário acredita que “o que leva as pessoas a colecionar é o saudosismo e a nostalgia do tempo de criança. Do tempo em que tiveram uma determinada coleção de cromos, ou carrinhos, ou brinquedos de qualquer tipo. Depois perdem tempo à procura e quanto mais difícil de arranjar mais bem sabe quando a peça é adquirida”, disse à Lusa.

Pouco meses antes da Porto Toys, já António Viterbo abria a Máquinas de Outros Tempos para pagar os estudos de Educação Social. Aos 25 anos, este apaixonado pelas câmaras do início e meados do século XX acredita que “hoje em dia está a voltar-se ao revivalismo, ao encontro do passado. As pessoas gostam muito de reviver, de voltar ao que já fizeram”, conta.

“O Instagram, o Impossible Project ou a Lomografia fizeram com que as pessoas voltassem a utilizar câmaras [analógicas] pelas cores diferentes, pelo modo diferente de criar uma imagem”, considerou o empresário, para quem o fascínio do retrato ou paisagem à moda antiga reside no “rolo de filme em que há a magia da fotografia, em que se espera para revelar para ver se realmente ficou bem.”

Numa zona que entre a rua da Conceição, a travessa do Coronel Pacheco e rua do General Silveira chegou a ser conhecida por Bairro dos Livros, Nuno Cadavez, 77 anos, explicou à Lusa onde fica a Livraria Académica.

“Sempre que me perguntam onde fica, eu digo que é na rua dos Homens Casados”, brincou o alfarrabista, em alusão aos martírios da liberdade que, ao que conta, sofreu noutros moldes e para quem a melhor forma de os aplacar foi mesmo a venda de livros antigos e de muitas primeiras edições.

“Entrei aqui com treze anos”, recordou, “escolhido de entre vários garotos que andavam por aí, talvez porque vinha da aldeia e seria, possivelmente, uma pedra fácil de burilar, sem vícios”, um ponto de partida que para o fundador Joaquim Guedes da Silva terá sido uma aposta ganha, agora que o pupilo conta com 64 anos à frente da casa que completa um século de vida a 16 de novembro.

Nuno Cadavez parte da própria adolescência para supor que “o cliente procura sempre recordar aquilo que lhe foi agradável na infância. Os brinquedos, os objetos, os livros com que brincou e, portanto, faz destes lugares que estão agora, de facto, bem sortidos desse tipo de gente, uma espécie de roteiro sentimental”, considerou, para voltar ao comércio de memórias.

ACYS

Lusa/Fim.

Posted in Uncategorized by André Sá on 16 de Fevereiro de 2012

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Do ninho e da caverna

Posted in Arquitectura, Literatura by André Sá on 22 de Fevereiro de 2010

Confirmado o diletantismo, aqui vai mais um texto, ou amálgama de palavras-chave, potencialmente perdida para a posteridade, quiçá sujeita a hallazgos fulminantes para daqui a três séculos, mais uma achega dispersa entre incontáveis servidores da Google para o potencial proveito de um perfeito desconhecido…


Do ninho e da caverna

É dos sonhos de qualquer criança. Nem que por momentos, vá, algumas horas, eclipsar toda a gente à face da Terra e explorar o que restasse, a casca da civilização, entre prédios e lojas, usufruir de tudo o que a espécie deixasse para trás. Originalmente prostituído por Hollywood e Vincent Price, em “The Last Man on Earth”,  o tal sonho viu a sua mais recente encarnação reciclada em “I am Legend”, mas nem por isso manteve a sua pureza original, pelo menos não nos States, em que um homem só não merece um filme, mas requer   sempre zombies ou algo equivalente.

Este imaginário do Homem Só chegaria ao estrelato pela mão de duas fontes de improvável relação entre si, uma relação aliás baseada apenas neste nicho de sonho infantil que será namorar um mundo vazio.

The World Without Us, by Alan Weisman

Em entrevista ao Daily Show de Jon Stewart, o autor d’ “O Mundo sem Nós” explica que nunca quis talhar um livro de consciencialização ambiental que informasse o leitor de todas as formas pelas quais iria morrer, pelo que decidiu matar toda a gente nas primeiras páginas e divertir-se a estudar o que faria o mundo sozinho. Alan Weisman, jornalista, investigador, informa, meticuloso, sem meias tintas ou sentimentalismos, que o labirinto dos túneis do subwayde Nova Iorque seria completamente inundado em duas semanas caso ninguém mantivesse a funcionar as bombas que impedem o rio Hudson de invadir as linhas, pelo que os pilares dos túneis e estações de metro, cujo tecto são os passeios, praças e avenidas da cidade, apodreceriam completamente em menos de vinte anos, transformando a Lexington Av. em Lexington River, a Times Square no Times Lake, investido então de um nome ironicamente adequado.

Dos materiais humanos sobreviveriam sobretudo o bronze e os plásticos, que a selecção natural trataria ainda assim de corroer através de uma futura gestação de bactérias ávidas de PVC. O derradeiro vestígio da espécie humana serão as ondas de rádio das inúmeras transmissões televisivas e de dados wireless, perpetuamente amplificados pelo universo, audíveis ainda após o Sol expandir-se e engolir o sistema solar até Marte.

Outra fonte que conferiu ao sonho do Sozinho mais quinze segundos de fama veio do Japão, em Portugal por ocasião do Fantasporto, e parece que antecipa o que o tempo virá a fazer às suas obras, arquitectónicas por sinal, escusando-se a sujeitá-las à Natureza ou mão humana, e criando-as quase que consumidas à partida, de raíz.

© Sou Fujimoto

“As ruínas, enquanto inspiração para o trabalho arquitectónico, retratam a condição de homogenia”, diz à Vice, via e-mail, para advertir que não pretende “uma tradução literal de um certo pensamento nihilista que concebe a arquitectura como desgastada pela meteorologia, ou mesmo desconstruída, pela Natureza ou pelo Homem”.

Fujimoto apresentou ainda, em palestra no Fantasporto, o projecto vencedor do último World Architecture Festival, em Barcelona: a Casa de Madeira, baseada num tipo de jogo de encaixes tradicional do Japão. É a sua versão da caverna, orgânica na sua adaptação ao corpo humano, sem pisos nem pilares, mas em que cada barra de madeira é simultaneamente degrau, mobília, parede e chão.

Uma arquitectura de um “futuro primitivo”, nas palavras com que baptizou o livro em que entende “cada ponto de partida enquanto gerador de uma miríade de diferentes arquitecturas” e em que classifica as sua criações numa dicotomia de  Caverna vs. Ninho.

“Estes princípios são intuições; um palpite de que há infinitos pontos de partida em vez de um solitário e ideal princípio”, explica.

© Sou Fujimoto

Sou Fujimoto está já a ultimar os preparativos para a construção de uma biblioteca em Tóquio, aparentemente infinita no modo pelo qual as paredes parecem compostas de livros, curvando-se sem fim à vista, da mesma forma que confidenciou ter detectado nas curvas das ruas da Ribeira do Porto. “A Biblioteca de Babel”, de Jorge Luís Borges, salta à imaginação e Fujimoto confirma à Vice que é dos seus contos favoritos.

Nele, a Biblioteca, que contém todos os livros possíveis, com todas as combinações de vinte e cinco letras, parece precognizar o próprio conceito de Internet, em que a pesquisa de combinações aleatórias de símbolos origina cada vez mais resultados, a partir de palavras caóticas cada vez maiores. Faça-se o exercício e pesquise-se quaisquer conjuntos de quatro ou cinco caracteres, e só muito raramente não se obterá sentido numa língua ou outra, num código ou noutro.

Estes dados transmitidos em ondas de rádio e modems wireless, perpetuamente amplificados, audíveis ainda após o Sol expandir-se e engolir o sistema solar até Marte, seriam o derradeiro vestígio da espécie humana, a biblioteca que restará num Universo que, diz-se, terá a forma de Ninho…

“Talvez me enganem a velhice e o temor, mas tenho a suspeita de que a espécie humana — a única — está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.”

Jorge Luís Borges

Da corrupção estacionária

Posted in Jornalismo by André Sá on 22 de Fevereiro de 2010

Imagem: DR, colecção: F1 online RM, fotógrafo: sodapix/F1online

Escrevi isto em estágio no Diário Económico e não foi publicado, pelo que o disponibilizo aqui, com as devidas alterações e hiperligações adequadas…


Se lhe parece improvável que uma multa de estacionamento que eventualmente receba possa reflectir o estado do sistema de corrupção em Portugal, pois talvez tenha razão. A não ser que ocupe um qualquer cargo político que lhe permita a isenção de tais coimas. Nesse caso, a preocupação com um bom estacionamento assume já contornos éticos e de civismo que nada têm a ver com o cumprimento da lei pelo evitar da punição. No caso de ser imune, é então a cobaia perfeita para medir, ainda que com fidelidade duvidosa, o grau de cultura de “elasticidade” corporativa, económica e política vigentes no país.

A premissa, muito ao tom dos ‘best-sellers’ “Freakonomics e “O Economista Disfarçado”, foi apontada justamente pelo autor deste último, Tim Hartford, num artigo da revista ‘on-line’ Slate.com. De acordo com um estudo levado a cabo por dois já conceituados economistas, Ray Fisman e Edward Miguel, a cultura de corrupção de um país é medível de acordo com o esforço perpetrado pelos seus diplomatas, embaixadores ou cônsules em, aquando de visitas a outros países, evitarem desrespeitar a mais pequena lei, ainda que estejam imunes das consequências do seu incumprimento.

Pelo que  o Diário Económico pôde apurar junto de Tim Hartford, a sensação que trespassa junto dos “novos jornalistas económicos”, aqueles que incorrem em sucessivas tentativas de acessibilizar a economia ao grande público através de livros que a simplificam e a munem de um cariz de manifesto entretenimento, é de que “a banalização da corrupção de um determinado país se pauta mais por pressões de índole cultural que pelo sistema legal vigente”. O autor de “O Economista Disfarçado” pretende que tais análises, de intenção marcadamente populista e de divulgação da economia às massas, são elaboradas a partir de uma preocupação com rigor e cuidado no tratamento de dados e correlações que ultrapassam a de jornalistas e políticos. “Todos estes economistas admitem que a correlação não é o mesmo que consequência”, diz, postulando que o rigor dos estudos permite inferir ilações entre pormenores aparentemente irrelevantes, como simples infracções de trânsito, e problemas de abrangência cultural.

O estudo [PDF] de Ray Fisman e Edward Miguel, que abarca o período de Novembro de 1997 ao mesmo mês de 2002, contabilizou o número de diplomatas estrangeiros que afluíram à sede das Nações Unidas em Nova Iorque, assim como o número de multas de estacionamento que cada um descobriu no limpa pára-brisas da respectiva viatura.

Ainda que parecendo carente da análise de vários factores influentes na suposta medição da mentalidade cívica e ética dos diplomatas, como o facto de poderem não conduzir o próprio carro, a análise propõe que é a mentalidade do comum dos cidadãos de um dado país que reflecte a cultura de corrupção vigente, aliada aos incentivos que os respectivos governos atribuam à transparência ou ao contorno das normas estabelecidas.

É interessante verificar como países como a Noruega ou o Japão se encontram no fundo da lista de diplomatas que receberam mais multas de estacionamento, enquanto Moçambique, Angola e Indonésia, todos países com uma séria e grave cultura de aceitação da corrupção, ocupam lugares cimeiros da lista liderada pelo Kuwait, que em 1998, com somente nove diplomatas presentes em Nova Iorque em missão das Nações Unidas, contabilizou uma média de 246,2 infracções por diplomata.

A lista, ainda que de manifesto interesse lúdico, revela-se contudo demasiado inexacta nas associações que postula entre o cumprimento da lei e a corrupção. Basta verificar que países se encontram no fundo da lista, isto é, cujos diplomatas não sofreram qualquer multa, para depreender que o estudo pouca relação terá com o carácter corruptível que as respectivas nações possuem. Será de algum modo credível que o Panamá seja dos países mais isentos de corrupção no mundo, a par da Colômbia e ao mesmo nível da Suécia por não possuir infracções entre os embaixadores que envia em missões a Nova Iorque? Dificilmente, mas é reveladora a coincidência entre o número de multas passadas a diplomatas de países de maior ou menor liberdade política, um elevado número para países do Norte e Centro de África e inexistente para vários países europeus ou o Japão.

Tim Hartfort considera que o contabilizar das multas de estacionamento dos diplomatas de um qualquer país não constitui matéria relevante para a medição do sistema de corrupção instalado nas respectivas sociedades, mas providencia “uma relevante análise das suas consequências”, na medida em que reflecte a preocupação dos governos em proporcionar incentivos ao combate à corrupção.

Portugal, para o melhor ou o pior, encontra-se em 68º lugar na lista de países que mais multas receberam: dos dezasseis diplomatas presentes em Nova Iorque em 1998, cada um recebeu uma média de 8,8 multas, o que nos coloca abaixo da Venezuela mas com mais coimas que o Uzbequistão. Quantos dos leitores, se munidos de imunidade, se inibiriam de estacionar onde bem lhes apetecesse?

André Sá

20 de Julho de 2006

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